Emerson Gomes
Poucos triatletas dão a devida importância à natação
no contexto do triathlon. Canso de escutar que a modalidade não define a
prova e representa pouco no conjunto das três etapas dentro do
triathlon.
Comparativamente, a natação é a modalidade que
representa o menor percentual dentre as modalidades que compõe esse
esporte, porém poucos se lembram do quanto ela pode ser decisiva dentro
de uma estratégia de treinos e provas.
A natação é uma modalidade
essencialmente aeróbica – até aí, nenhuma novidade, porque o ciclismo e
a corrida também são. O maior diferencial dela para as outras é que a
natação é uma modalidade de alto rendimento, com grande exigência
aeróbica e que traz pouco comprometimento músculo-esquelético.
Resumindo: treinando natação temos um excelente ganho aeróbico sem
correr risco de lesões. E ganho aeróbico representa melhora nas três
modalidades. Podemos até colocar uma pergunta de fácil resposta: por que
boa parte dos grandes triatletas vem da natação? Pois são atletas que
já trazem uma “bagagem” aeróbica muito boa. Daí para pedalar e correr
bem é uma questão de adaptação mecânica nessas outras modalidades.
Quando
falamos de estratégia de prova, a natação é mais determinante se o
nível técnico da disputa for alto. Imaginem dois atletas de elite que
vão disputar uma boa colocação no triathlon. O atleta que nada um pouco
melhor abre uma distancia de 40 metros na primeira etapa da prova. Essa
distância é pequena dentro da água, possível de visualizar nitidamente a
distância entre o primeiro e o segundo. Essa pequena vantagem pode ser
ampliada em dez vezes, aumentando para 400 metros quando o atleta começa
a pedalar. Obviamente isso acontece porque a velocidade do ciclismo é
muito superior à da natação. Esses 400 metros são suficientes para que o
triatleta quase saia do campo de visão para o competidor que vem atrás.
Em se tratando de atletas de nível técnico alto, tirar uma diferença de
400 m é bastante complicado, mesmo sabendo que ainda há a corrida por e
que a velocidade é um menor que a do ciclismo.
Estamos falando
ainda de provas nas quais pegar vácuo é proibido. Quando falamos de
provas com o vácuo liberado, como são as disputas oficiais em Jogos
Olímpicos e campeonatos mundiais, a natação representa a modalidade mais
determinante da prova. Se o atleta que vem atrás deixar abrir uma
distância superior a três metros de quem está à frente, assim saindo da
zona chamada de “esteira”, a chance da prova desse atleta acabar por ali
é grande. Veja só leitor: são apenas três metros na água que podem
definir uma prova. Parece pouco, mas essa distância pode chegar a 30
metros no início da bike. Se existir um pelotão revezando na frente, vai
ser quase impossível para o atleta que vem atrás encostar no grupo
dianteiro.
Agora entendemos o motivo da briga desses atletas de
elite em momentos- chave da prova como a largada da natação, a montada
da primeira boia, a primeira transição e o início forte no ciclismo. Não
existe um campeão que não tenha feito uma boa natação.
Sei que a
natação pode ser a mais monótona e solitária das três modalidades que
compõem o triathlon e fico triste quando vejo que muitos triatletas que,
quando “matam” algum treino, acabam por optar de não fazer o de
natação. Como técnico de triathlon com muitos anos de experiência nesse
esporte, se posso dar um conselho para você, leitor triatleta, diria
para treinar muita natação! Mal não vai fazer. Se puder, nade todos os
dias. Sempre que puder faça treinos em águas abertas e dê mais
importância à técnica do que à força.
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Doping: não há certo ou errado ...
Por Mauro Ribeiro
O passaporte biológico foi colocado em xeque e mais uma polêmica promete ganhar força na mídia; devíamos parar com hipocrisia e profissionalizar ainda mais o processo de dopagem
No último mês de setembro, duas bombas estouraram no ciclismo europeu e, mais uma vez, reviveram a polêmica sobre o doping. Alberto Contador, campeão do Tour de France, e Ezequiel Mosquera, vice-campeão da Vuelta a España, testaram positivo no antidoping.
Não bastassem a pressão e a polêmica em torno do caso, o ex-ciclista austríaco Bernhard Kohl – pego em 2008 no doping – ainda colocou a “boca na botija” e afirmou que nenhum ciclista tem condições de vencer o Tour sem fazer uso de substâncias proibidas.
Vamos por partes. O assunto é complexo, mas temos de aceitar um fato: os melhores ciclistas do momento são aqueles que alinham para a largada do Tour de France. Se eles utilizarão algum processo irregular para aumentar sua performance, e alguns o fazem, isso é algo muito pessoal. Esse processo – mesmo que dentro de uma equipe – é algo muito individualizado.
Em contrapartida, se fizessem uma avaliação genética e metabólica dos ciclistas – em condições iguais –, o resultado seria compatível com a classificação, seja no Tour, no Giro d´Italia ou na Vuelta a España. Com isso, quero dizer que, independentemente daquilo que esteja envolvido, o ciclista deve ser respeitado pelo seu histórico e capacidade.
Contador passou por uma série de exames dentro da competição e acabou flagrado em apenas um deles, sendo que a substância não apresentava vestígios no exame do atleta dias depois. O espanhol passou por inúmeros testes ao longo da temporada, tem em seu currículo cinco títulos de grandes voltas. Isso não foi obra do acaso. No entanto, se voltarmos ao começo da conversa: quem foi Kohl? Um ciclista nada excepcional, que destoou da maioria no Tour 2008, esse sim gera suspeitas.
O antidoping foi criado com o objetivo de colaborar e inibir a utilização de substâncias proibidas. O ciclismo foi o primeiro esporte que abriu as portas e fez um grande investimento dentro desse processo. Hoje, o atletismo também parece compreender a necessidade e segue os passos na luta pelo “justo e limpo”, mas cairemos na complexidade novamente.
Veja o quão desgastante é uma temporada. Os atletas recorrem a um processo vitamínico, que serve como regenerativo muscular ou soro em casos de desidratação. E por conta disso podem ser considerados dopados? Deve haver um limite para aquilo que é ou não doping. Muitos fazem disso algo sensacionalista – um jogo de polícia e ladrão. O que todos querem é reduzir e, se possível, banalizar o doping.
Recentemente, Di Luca e Pelizotti acabaram liberados pelo CONI (Comitê Olímpico Nacional Italiano), sem cumprir os meses de suspensão definidos pela UCI (União Ciclística Internacional). O passaporte biológico foi colocado em xeque e mais uma polêmica promete ganhar força na mídia. Devíamos parar com hipocrisia e profissionalizar ainda mais o processo de dopagem. Caso flagrado, que seja banido do esporte. Não há santo, mas também não há bandido.
Alguns acabam julgados injustamente e veem a vida tomar um rumo diferente em meio ao álcool, drogas e, em determinados casos, até mesmo suicídio. O ciclismo não fala o que é certo ou errado. Não existe uma influência direta. Vários disseram que usaram. São safras de situações que levam alguns ciclistas a seguir uma determinada linha de trabalho, seja para o bem ou para o mal.
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