O “gerenciamento de crise” que se faz em São Paulo é, em outras palavras, a preocupação com a manutenção do status-quo, com o fluxo da cidade-que-não-pode-parar. Nada nem ninguém pode “atrapalhar” a rotina do cidadão de bem.
Mas, afinal, quem é a cidade? Quem é o cidadão de bem?
Lauro Neri era baiano, trabalhava como pedreiro, tinha 49 anos,
casado, pai de família e usava a bicicleta diariamente para trabalhar.
Pagava seus impostos, tinha a vida suada e corrida – assim como muitos
de nós. Mas seu direito de viver foi brutalmente interrompido na manhã
do dia 03/04, pela velocidade cega de alguém.
O “acidente” envolvendo o Lauro atrapalhou o trânsito, causou
congestionamento e deslocou agentes públicos para a Av Pirajussara, uma
continuação da Eliseu de Almeida (local que era pra ter uma ciclovia de 15km desde 2010). Mesmo sem saber, mesmo sem querer, naquele dia o Lauro atrapalhou o fluxo e foi o culpado pelo estresse de muitos “cidadãos de bem”.
Mas indo de encontro a toda essa dinâmica doentia do fluxo de carros e
individualismo que norteiam (e matam) o paulistano, dezenas de
ciclistas se reuniram no local da tragédia para manifestar – mais uma
vez – toda a indignação pelo desrespeito à vida do outro.
O caminho até a Eliseu de Almeida já é algo bem desumano, com pontes,
acessos rápidos que parecem de rodovias, pistas enormes. Terra de
ninguém. Ao chegar na Av. Pirajussara, as ruas recapeadas, lisas e sem
fiscalização viraram uma ótima opção para quem quer pisar fundo no
acelerador.
Como não possuímos acelerador, permanecemos com a nossa velocidade humana e humilde das próprias pernas.
A via não possuía (até o dia da morte) absolutamente NENHUMA
sinalização no asfalto. Nem faixas de rolamento, nem indicação de
velocidade, muito menos faixas de pedestres. Um erro grave,
considerando que uma rua assim não poderia estar aberta à circulação,
segundo o artigo 88 do Código de Trânsito Brasileiro.
A Reação
Uma faixa de pedestres também foi brilhantemente pintada, entregue aos moradores da região e comemorada por quem precisa atravessar a rua. Tarefa difícil em São Paulo.
Por fim, penduramos mais uma Ghost Bike sob aplausos, buzinas e gritos incansáveis de “mais amor, nossa vida tem valor”.
A “bicicleta fantasma” ou “bicicleta branca” serve para lembrar que
por ali passou um cidadão, que teve sua vida atropelada pela pressa de
alguém.
No caso do Lauro, não só a pressa, mas a clara omissão do poder
público – Prefeitura de São Paulo, Companhia de Engenharia de Tráfego
(CET) e Secretaria Municipal de Transportes (SMT) – em não sinalizar a
rua nem construir a ciclovia prometida em 2007.
Ontem a noite escancaramos – mais uma vez – para todo mundo, a olho
nu, o quão irresponsável e assassina é nossa administração pública. Não
adianta fazer de conta que os ciclistas se arriscam de forma suicida ao
utilizar as vias e que não são responsabilidade do poder público. São
sim. A prefeitura tem a obrigação legal de tornar as vias seguras a
todos os cidadãos (art. 24 do CTB).
A Ação
Os agentes de trânsito começaram, horas depois do protesto, durante a
madrugada, o trabalho obrigatório (que deveria ter sido feito dois
meses antes) de sinalizar o corredor Pirajussara/Eliseu de Almeida.
Parafraseando a querida Sabrina Duran: O Lauro precisou morrer, os cidadãos precisaram se unir pra sinalizarem a via sozinhos,
pintando bikes e faixa de pedestres no asfalto. A proporção dessa
administração é perversa, 1 pra 1: uma morte para uma obrigação
cumprida.
Descanse em paz, Lauro.